quarta-feira , 23 setembro 2020
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Hábitos de consumo pós-pandemia sob a ótica da indústria de alimentos e bebidas

* Por Monica Pieratti

Desde que adotamos medidas preventivas de distanciamento social e migramos todos os nossos afazeres do dia a dia para dentro de casa, uma série de mudanças foram incorporadas às nossas rotinas, de hábitos de higiene a novos hábitos de consumo. Recentemente, relatório divulgado pela Kantar (Consumer Thermometer #11) revelou que 61% dos brasileiros planeja manter a maioria dos novos hábitos adquiridos durante a pandemia, cabendo um olhar atento para alguns deles.

Sob a ótica da produção e oferta de alimentos e bebidas, destaco algumas mudanças que considero importantes: 1) 54 % dos entrevistados diz estar comendo de forma mais saudável; 2) 46% diz que irá manter o hábito de realizar compras online; e 3) 74% diz que continuará evitando lugares lotados mesmo após o fim da pandemia.

Por trás de cada um desses dados se escondem algumas oportunidades. No caso da manutenção de uma alimentação mais saudável, nota-se o maior interesse do consumidor por formulações que priorizem ingredientes naturais e que possam contribuir com o bem estar físico e mental do indivíduo. Aqui falamos desde bebidas fortificadas, como bebidas lácteas com alto teor de proteína, a snacks e pequenas indulgências com alto valor nutricional, a exemplo do creme de açaí.

Além de responderem ao desejo por saudabilidade, esses são alimentos que agregam conveniência ao dia a dia do consumidor, justamente por virem prontos para consumo. Especialmente no caso de famílias com filhos, a oferta desses produtos surge como um facilitador em uma rotina já bastante atribulada entre afazeres domésticos e trabalho remoto, no caso de pais trabalhando no modelo de home office.

Sob a perspectiva da indústria, são alimentos e bebidas com modelo de processamento similar ao de outros produtos tradicionalmente encontrados no mercado, portanto, não demandando altos investimentos em aquisição de novas tecnologias.

Oferecer produtos pensados para as diferentes situações de consumo presentes em um único dia, desde que equacionando saudabilidade e conveniência, será preponderante de agora em diante. Mas cabe uma ponderação: em função da restrição de orçamento imposta a muitas famílias, o preço será um componente ainda mais importante. Trabalhar com valores acessíveis ou dentro da média de mercado será decisivo na escolha do consumidor.

Em outra ponta, também existe aquele consumidor que tem aproveitado o maior tempo em casa para explorar novas receitas e desenvolver novos talentos culinários. Por causa disso, produtos para receitas caseiras têm registrado alta durante a pandemia, a exemplo do leite condensado (61%), creme de leite (45%) e leite longa vida pronto para beber (39%), segundo dados levantados pelo mesmo estudo da Kantar.

Se considerado que quase ¾ dos brasileiros seguirá evitando lugares lotados mesmo após o término da pandemia, é de se esperar que produtos básicos para consumo doméstico se mantenham em alta por algum tempo, o que traz oportunidades a fabricantes querendo investir em diversificação de portfólio ou em ampliação de linhas de processamento e envase.

No que diz respeito à distribuição, o avanço do supermercado online se mostra até aqui um grande divisor de águas. Quanto mais as medidas de distanciamento social se estenderem no tempo, maiores serão as chances de o comércio online moldar os hábitos de consumo pós-pandemia.

Segundo a empresa de inteligência de mercado Compre&Confie, focada no comércio eletrônico, a venda online de alimentos e bebidas cresceu 310% em junho, quando em comparação com o mesmo período de 2019. Tendo em mente que 46% dos brasileiros pretende manter a compra virtual em seus hábitos pós-pandemia, estarão em vantagem as marcas e fabricantes que tiverem uma boa penetração no ambiente digital, seja em sites de grandes varejistas, marketplaces ou investindo em canais próprios.

Ainda que a pandemia seja passageira, alguns comportamentos adquiridos durante a quarentena não serão. Desde hábitos completamente novos a mudanças que já se desenhavam e que nos últimos meses ganharam tração, a verdade é hoje há uma série de fatores influenciando o ambiente de negócios. Manter um olhar atento para essas mudanças e desenvolver produtos que respondam aos novos anseios do consumidor será preponderante para a gestão e manutenção dos negócios no setor de alimentos e bebidas.

* Monica Pieratti é diretora de portfólio para a área de Processamento da Tetra Pak, sendo responsável por toda a região Américas. Formada em Marketing pela Universidade Luterana da Califórnia, a executiva acumula experiência no desenvolvimento de estratégias de negócios em diferentes mercados, inclusive tendo liderado o desenvolvimento de portfólio de produtos para a Tetra Pak globalmente.

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