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O mercado de alimentos está mudando e o cacau pode ser protagonista dessa transformação

Por Paulo Gonçalves*

Durante muito tempo, falar em chocolate significou falar em indulgência. Chocolate era associado ao prazer, à sobremesa, ao presente, à recompensa. Tudo isso continua fazendo parte desse universo, mas acredito que estamos vivendo uma transformação importante porque o consumidor está mudando, inclusive a maneira como ele enxerga o chocolate.

Essa transformação não está restrita ao nosso setor. Ela acontece em todo o mercado de alimentos.

Dados e análises recentes do varejo mostram uma redistribuição do orçamento das famílias. Saúde, proteína, conveniência, funcionalidade e produtos zero açúcar ganham relevância, enquanto categorias tradicionais de indulgência enfrentam maior pressão. Em um dos recortes sobre o varejo alimentar brasileiro, a indulgência apresenta retração de aproximadamente 4,7%, enquanto segmentos como proteicos, frutas congeladas, energéticos e refrigerantes sem açúcar avançam.

É um movimento que merece atenção de toda a indústria de alimentos porque não estamos falando apenas de uma troca de produtos. Estamos diante de uma mudança de valores e prioridades do consumidor que continua querendo sabor e prazer, mas passou a procurar outros atributos junto com eles.

Ele observa a quantidade de açúcar, procura produtos proteicos, funcionais, zero açúcar e presta mais atenção aos ingredientes. Saúde, conveniência, qualidade e benefício percebido passam a dividir espaço com preço na decisão de compra. O consumidor economiza nas categorias onde percebe pouca diferenciação, mas aceita pagar mais quando identifica benefícios claros.

As pessoas continuam querendo comer algo gostoso e chocolate. Mas uma parcela crescente quer conciliar esse prazer com aquilo que considera adequado ao seu estilo de vida.

Existe uma tendência de colocar todos os chocolates dentro de uma única categoria, quando, na realidade, estamos falando de produtos com composições muito diferentes.

O consumidor precisa ser estimulado a olhar o rótulo. Quanto cacau existe naquele produto? Quanto açúcar? Quais são os ingredientes? De onde vem a matéria-prima?

Em vez de tratarmos o chocolate apenas como um alimento ligado à indulgência, podemos ampliar essa conversa e mostrar a diversidade existente dentro desse universo.

Isso passa por chocolates com maior concentração de cacau, opções zero açúcar, produtos de origem e formulações desenvolvidas para diferentes necessidades e momentos de consumo.

As próprias tendências identificadas para o mercado de chocolates já relacionam alto teor de cacau, chocolates de origem, saudabilidade, bem-estar, sustentabilidade e qualidade às novas demandas dos consumidores.

Por isso, acredito que o caminho não seja abandonar o prazer associado ao chocolate e sim mostrar que prazer, qualidade da matéria-prima e escolhas mais conscientes que podem estar no mesmo produto. 

O peso do preço

A crise internacional do cacau provocou uma forte elevação dos custos da matéria-prima nos últimos anos. Mesmo depois da queda das cotações internacionais, o consumidor brasileiro ainda encontra chocolates mais caros nas lojas.

Dados da Worldpanel mostraram que, no primeiro trimestre de 2025, o consumo domiciliar de chocolates caiu 19% em volume, enquanto o preço médio por quilo aumentou 17%. Ao mesmo tempo, embalagens de até 60 gramas cresceram 2%, mostrando que parte dos consumidores passou a buscar porções menores para reduzir o impacto da compra no orçamento.

Esse é um exemplo importante de que não podemos olhar somente para faturamento.

Uma categoria pode crescer financeiramente porque o preço médio aumentou, enquanto o número de unidades ou o volume vendido está caindo. Para a indústria e para o varejo, entender essa diferença será cada vez mais importante.

Precisamos saber não apenas quanto o consumidor está gastando, mas onde ele está escolhendo gastar.

Nesse novo cenário, acredito que três elementos ganharão cada vez mais importância no mercado de chocolates: composição, origem e transparência.

O consumidor está aprendendo que existem grandes diferenças entre os produtos disponíveis na gôndola. E, à medida que esse conhecimento aumenta, cresce também a oportunidade para chocolates que consigam comunicar claramente o teor de cacau, a procedência da matéria-prima e os diferenciais de sua formulação.

É um movimento semelhante ao que vimos acontecer com outros alimentos. O consumidor aprendeu a diferenciar cafés por origem, torra e qualidade e a conhecer uvas e regiões produtoras de vinho. Com o cacau e o chocolate, temos espaço para avançar pelo mesmo caminho.

E o Brasil tem muito a ganhar com isso.

Paulo Gonçalves é fundador da Espírito Cacau e terceira geração de uma família capixaba ligada à produção de cacau.

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